novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......

novelos soltos, emaranhados, organizados, escondidos, fiapos da vida......
convido-os a desenrolar alguns fios reais e ficcionais

domingo, 8 de janeiro de 2012

REAL - PLÁGIO

vozes a mais
vozes a menos
a máquina em nós que gera provérbios
é a mesma que faz poemas,
somas com vida própria
que podem mais que podemos
(Paulo Leminski)

Lá vem ele navegando pelos mares virtuais, saqueando ideias alheias, control C control V e mais uma ideia é pirateada por este navegador inescrupuloso que não se interessa em saber se foi fácil ou difícil concatenar ideias, ligar pontos, associar teorias... o que lhe interessa é ir bem na nota. Ficar bem com o professor.


Ou seja, fica apenas no control C control V, formatando uma colcha de patchwork mas sem saber se as costuras estão bem feitas, ou se há combinação dos “pedaços” recolhidos e costurados.


Não tem a menor ideia de como foi difícil ao autor do texto costurar com linhas fortes de argumentações e com pontos firmes de conclusões.


Estou sendo metafórica demais?
Então vamos direto ao ponto. Quem foi, ou é, meu aluno sabe o quanto combato o plágio.


Quando encontro escritos plagiados dou zero, e comunico à coordenação. O aluno pode até não ser expulso da instituição, mas está “queimado” com os professores e dificilmente receberá recomendações.


Sempre digo aos alunos sobre as penalidades, por lei, do plágio (desde meses até um ano de cadeia e/ou multa). Sempre comento da dificuldade de se PENSAR e de escrever ideias inéditas, fazer associações com bases metodológicas, argumentativas e com pesquisa séria. Nem vou comentar sobre o enorme aumento de plágio em trabalhos universitários. Mas o pior é que a maioria dos alunos me diz que nunca foi falado para eles que isso era plágio -  que usar fontes e não citá-las era um crime.


Eles reclamam que isso deveria ser ensinado desde cedo nas escolas. E fiquei me questionando o quanto isso era real. Lembrei que quando criança (lá pelos idos de 74 / 76) as professoras pediam que pesquisássemos sobre algum assunto (por exemplo: Descoberta do Brasil). E que eu pegava as folhas de papel almaço, pegava o número certo da Enciclopédia (naquela época os vendedores passavam de casa em casa convencendo os pais de que ter uma enciclopédia em casa era importantíssimo para a cultura dos filhos), copiava (ipsis literis) o que estava escrito. Isso seria plágio... mas... lembro que sempre colocava ao final do trabalho de onde foi retirado o texto (ou seja, citação!!).
Está certo que somos aquilo que lemos, vimos, experimentamos, ouvimos e absorvemos de outras culturas e outras artes. Quando trabalho intertextualidade e hipertextos com meus alunos de PP comento isso. Que precisamos de um repertório ou bagagem cultural (vide artigos de Iser e Jauss), e que somos parte de uma teia. Ou seja, fazemos relações e associações como um mosaico de conhecimentos e artefatos. Basta pensarmos também em Bakhtin com seu dialogismo e sua polifonia (não entrarei em detalhes aqui, mas é interessante para se pensar os diferentes diálogos que promovemos com passado e presente, somos intermediadores de textos e imagens).


Como diz Kristeva (que utilizo em minhas aulas), o hipertexto tem sempre uma intertextualidade. É dela a célebre frase que inaugura a primeira definição de intertextualidade: “todo texto se constrói como um mosaico de citações, todo texto é a absorção e transformação de um outro texto” (1969, p. 85). Mas isso não quer dizer que devemos “copiar” sem citar! Ao contrário!
Está em discussão, atualmente, um assunto relacionado a isso: a jovem escritora alemã que está fazendo sucesso. Essa “escritora” alemã (coloco o termo entre aspas porque, na minha opinião, ela é apena ladra), já me chamou a atenção pelo próprio título do livro – Axolotl Roadkill – imediatamente me lembrei de Julio Cortázar com seu conto Axolote. Esta menina atropelou vários escritores com seu livro, pois insere trechos e frases de vários autores e blogueiros sem citar! Não estou criticando o fato dela ter usado outras obras, pois eu também utilizei alguns termos ou frases de outros escritores, pensadores e filósofos em meu livro de contos, mas os cito ao final dele.


Assim, devemos saber separar uso de abuso. Ter ideias não é fácil, desenvolver as ideias também não é... já roubar ideias é fácil (como tirar doce de criança) e deve ter seu “castigo”. É um absurdo que editoras permitam que esta “escritora” continue a vender seu livro. Assim como é um absurdo que “universitários” tenham preguiça de pesquisar, fazer associações, buscar argumentações com proposições SUAS, com conclusões próprias.
Este post acabou muito extenso e pouco profundo. Mas o assunto daria praticamente uma tese. Fica apenas como reflexão sobre autoria, plágio e pesquisa.
Também aconselho a buscarem o link - sobre Como Nossa Educação Contribui para o Crime Organizado, de Adonai Sant´Anna


E a música Em Berço Esplêndido - Adonai Sant'Anna II
(basta clicar em cima dos nomes que você será direcionado para o blog e youtube)
Ou seja, naveguem meus caros alunos, mas naveguem sabendo pesquisar, refletir, pensar e PRODUZIR. E não sendo meros piratas da cara de pau.

Para quem tiver maior interesse, basta procurar



O dialogismo de Bakhtin (1997), ou melhor, as relações dialógicas apontadas por ele no estudo "Estética da criação verbal". Essas relações partem da premissa de que "todas as palavras e formas, que povoam a linguagem são vozes sociais e históricas que lhe dão determinadas significações concretas e que se organizam no romance em um sistema harmonioso [...]".

KRISTEVA, Júlia. Introdução à Seminálise. São Paulo: Debates, 1969.
(todas as imagens foram retiradas da internet)

4 comentários:

  1. Para quem se interessou sobre o tema, achei algo que pode ser útil... contra plágios: http://copiaisso.blogspot.com/2009/08/como-proteger-os-feeds-de-plagiadores.html

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  2. CIRCE COMENTOU
    Gostei muito. Do que vc escreveu e também da Kristeva. Sabe? Eu era especialista em descobrir "colchas de retalho" instantaneamente, quando fazia muita correção de Monografias. Mesmo bem costuradas, é preciso ser "artista " de verdade para que não se perceba a falta de harmonia na composição do desenho. Fica uma coisa dura e sem alma. As vezes tinha raiva, mas muitas vezes tinha pena! Mas já vi um aluno fazer uma colcha completa dentro da legalidade - citando TODAS AS FONTES e, por incrível que pareça, conseguiu dar seu recado, pois estava tudo muito bem concatenado. Primeiro fiquei intrigada e depois achei que seu empenho fora tão grande em produzir algo bom sem saber expressá-lo com suas próprias palavras, que, ao entender bem os trechos escolhidos para cópia, deixou o todo harmônico e sem ar de falsidade. Além da correta citação de todas as fontes. Esse sim, além de tudo é um artista - e honesto! CIRCE COMENTOU

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  3. Cris Otoya comenta:
    Susan gostei da sua lógica, claro que apenas roubar não é bom, nem legal, mas as ciatações fazem parte dos trabalhos acadêmicos e é isso que os estudantes precisam entender.
    P.S. também não sei como por URL
    Cris Otoya

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  4. Obrigada Circe. Obrigada Cris. As participações dos leitores é muito importante! Apareçam sempre. Vou tentar postar algo de duas em duas semanas!

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